O 1.º e o 2.º mês de gravidez são os mais discretos por fora e os mais decisivos por dentro. A maior parte do que acontece nestas semanas não se vê nem se sente, e por isso o que vale a pena saber não é uma lista de sintomas normais: são os poucos sinais, raros, que pedem observação médica no próprio dia.

Em casa, conta-se em meses. Nas consultas e nas ecografias, usam-se semanas.

uma grávida com uma bebida quente numa cozinha verde-escura

O 1.º mês: onde a gravidez se instala

O embrião pode fixar-se fora da cavidade do útero, no canal do colo ou na cicatriz de uma cesariana anterior. É raro. A primeira forma surge em cerca de 1 em cada 9000 a 18 000 gravidezes e a segunda ocorre em cerca de 1 em cada 1800 a 2500. Sem diagnóstico e tratamento adequados, ambas trazem risco de hemorragia grave e de perda da fertilidade.

Copo de vinho tinto meio cheio ao lado de um copo alto de água numa mesa de madeira clara
Ilustração criada com IA
Quatro cápsulas douradas numa taça de cerâmica branca sobre linho ao lado de um copo de água
Ilustração criada com IA
O essencial. A apendicite é a urgência cirúrgica não obstétrica mais comum na gravidez: ocorre em cerca de 1 em cada 500 a 1 em cada 2000 gravidezes. Episódios de consumo excessivo de álcool numa ocasião, no início da gravidez, estavam ligados a chances de aborto espontâneo cerca de metade mais altas. Em mulheres com fatores de risco para implantação anómala, como cirurgias anteriores ao útero ou cesarianas prévias, a ecografia transvaginal precoce permite diagnosticar cedo uma gravidez fora do sítio. Isso abre a porta a tratamentos que preservam a fertilidade. Fontes: International journal of surgery case reports, Nutrients e outros.

Se já foi operada ao útero

Em mulheres com antecedentes de cesariana ou outra cirurgia ao útero, casos clínicos publicados descrevem como a ecografia transvaginal precoce permite diagnosticar cedo uma gravidez fora do sítio e, em doentes selecionadas e estáveis, recorrer a tratamentos que preservam a fertilidade. Mencione esse antecedente no primeiro contacto com quem a acompanha. Não espere que lho perguntem.

A vitamina D, medida cedo

Mães com níveis mais altos de vitamina D durante a gravidez, muitas vezes medidos no 1.º trimestre, tiveram filhos com uma probabilidade ligeiramente menor, cerca de 10%, de diagnóstico de autismo (risco relativo, RR 0,91) e de perturbação de hiperatividade e défice de atenção, PHDA (RR 0,90). É uma ligação fraca, vista apenas em estudos observacionais, com estimativas ainda imprecisas para a PHDA, e não prova que tomar suplementos previna estas condições. No autismo, a descida era de cerca de 9% por cada 10 nmol/L (nanomoles por litro) a mais no sangue.

Os autores destes trabalhos sugerem, sem que isso seja uma recomendação clínica oficial, que pode ser útil avaliar os níveis de vitamina D durante a gravidez e considerar suplementação quando há deficiência. Na primeira consulta, pergunte se vale a pena medir o seu nível e o que fazer se estiver baixo.

Exercício em casa

Se quiser começar a mexer-se nestas semanas, o plano por trimestre da MomsLab abre o primeiro trimestre com fortalecimento suave e respiração, sem impacto nem recordes, e passa sozinho para o trimestre seguinte; em casa, basta um tapete e espaço para se deitar.

O que se sente no 1.º mês, para lá do corpo

Num estudo pequeno que acompanhou mães do início ao fim da gravidez, com valores próximos das estimativas para a população, entre cerca de 1 em 10 e 1 em 5 mulheres tinha sintomas depressivos clinicamente significativos em diferentes fases. Uma proporção parecida apresentava sintomas de ansiedade. Uns e outros subiam e desciam ao longo dos meses.

Tapete verde salva num soalho de madeira clara numa sala tranquila, com manta dobrada e almofada redonda
Ilustração criada com IA

Sentir-se em baixo ou em sobressalto nestas semanas está longe de ser uma exceção.

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E o stress chega ao bebé?

No início e a meio da gravidez, o sistema de resposta ao stress do feto ainda é imaturo, e é a placenta que regula quanto do cortisol materno lhe chega. Uma enzima transforma o cortisol ativo em cortisona inativa e limita a passagem: este filtro, por si só, não mede quanto as tensões do dia a dia pesam no desenvolvimento do filho, mas significa que um dia mau não passa inteiro para o bebé.

Se o desânimo ou a ansiedade se instalam e não aliviam, diga-o na consulta com a mesma clareza com que falaria de uma dor. Merece o mesmo tempo e a mesma atenção.

O 2.º mês: o risco de perda

Numa coorte acompanhada nos Países Baixos desde antes da conceção, cerca de 9 em cada 100 gravidezes terminaram em aborto espontâneo antes das 22 semanas. Embora estes valores possam ser diferentes noutras populações, a grande maioria das perdas ocorreu no primeiro trimestre, tipicamente por volta das 8 semanas, ou seja, no 2.º mês.

O álcool: o seu e o do parceiro

Na mesma coorte, episódios de consumo excessivo de álcool numa só ocasião no início da gravidez estavam ligados a chances de aborto espontâneo cerca de metade mais altas, embora a associação não prove que o álcool seja a causa. A razão de chances (OR) foi de 1,52. O consumo do parceiro, antes da conceção e no início da gravidez, não estava associado nem a mais abortos nem a infertilidade.

A torção do ovário pode surgir cedo

O ovário pode rodar sobre si próprio, por vezes com a trompa. A gravidez aumenta o risco desta torção, sobretudo no primeiro trimestre e no início do segundo, com um pico entre as 6 e as 14 semanas, quando o útero cresce depressa e desloca os ovários e as trompas.

A torção é rara: ocorre em menos de 4 em cada 10 000 gravidezes, com risco maior em quem tem quistos ou massas no ovário ou fez tratamentos de fertilidade. É grave e exige diagnóstico e tratamento rápidos.

Quando procurar observação no próprio dia

Dor pélvica aguda, náuseas e vómitos são as manifestações habituais da torção do ovário, por vezes acompanhadas de febre ou perda de sangue vaginal. Estes sintomas confundem-se facilmente com outras causas de dor abdominal, sobretudo a apendicite.

Na gravidez, a apendicite é a urgência cirúrgica não obstétrica mais comum e ocorre em cerca de 1 em cada 500 a 1 em cada 2000 gravidezes ao longo de toda a gestação.

Ninguém tem de distinguir uma da outra em casa. Procure observação médica no próprio dia, sem esperar pela consulta marcada, se tiver:

  • dor pélvica ou abdominal aguda.
  • dor acompanhada de náuseas, vómitos ou febre.
  • perda de sangue vaginal com dor.
  • qualquer destes sinais depois de uma cesariana ou de outra cirurgia ao útero. Nesse caso, mencione a cirurgia logo à chegada.

Fontes

  1. Developmental psychobiology. Prenatal Origins of Stress Regulation: Maternal Psychological Distress and Inflammation During Pregnancy Prospectively Predict Infant Behavioral Reactivity and Regulation
  2. European child & adolescent psychiatry. The impact of maternal vitamin D levels during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit hyperactivity disorder diagnosis and symptoms in offspring: a systematic review and dose-response meta-analysis
  3. Frontiers in endocrinology. Perinatal HPA axis regulation and offspring neuropsychiatric development: mechanisms, developmental trajectories, and clinical implications
  4. International journal of surgery case reports. Ovarian preservation in a pregnant woman with a leaking dermoid cyst and ovarian torsion: a case study and review of diagnostic and therapeutic challenges
  5. Journal of clinical medicine. Cervical and Cesarean Scar Pregnancy in One Patient: A Sequential Case with Literature Review
  6. Nutrients. Preconception and Early-Pregnancy Alcohol Consumption in Women and Men, Infertility and Risk for Miscarriage