- O 1.º mês: onde a gravidez se instala
- Se já foi operada ao útero
- A vitamina D, medida cedo
- Exercício em casa
- O que se sente no 1.º mês, para lá do corpo
- E o stress chega ao bebé?
- O 2.º mês: o risco de perda
- O álcool: o seu e o do parceiro
- A torção do ovário pode surgir cedo
- Quando procurar observação no próprio dia
- Fontes
- Leia também
O 1.º e o 2.º mês de gravidez são os mais discretos por fora e os mais decisivos por dentro. A maior parte do que acontece nestas semanas não se vê nem se sente, e por isso o que vale a pena saber não é uma lista de sintomas normais: são os poucos sinais, raros, que pedem observação médica no próprio dia.
Em casa, conta-se em meses. Nas consultas e nas ecografias, usam-se semanas.

O 1.º mês: onde a gravidez se instala
O embrião pode fixar-se fora da cavidade do útero, no canal do colo ou na cicatriz de uma cesariana anterior. É raro. A primeira forma surge em cerca de 1 em cada 9000 a 18 000 gravidezes e a segunda ocorre em cerca de 1 em cada 1800 a 2500. Sem diagnóstico e tratamento adequados, ambas trazem risco de hemorragia grave e de perda da fertilidade.



Se já foi operada ao útero
Em mulheres com antecedentes de cesariana ou outra cirurgia ao útero, casos clínicos publicados descrevem como a ecografia transvaginal precoce permite diagnosticar cedo uma gravidez fora do sítio e, em doentes selecionadas e estáveis, recorrer a tratamentos que preservam a fertilidade. Mencione esse antecedente no primeiro contacto com quem a acompanha. Não espere que lho perguntem.
A vitamina D, medida cedo
Mães com níveis mais altos de vitamina D durante a gravidez, muitas vezes medidos no 1.º trimestre, tiveram filhos com uma probabilidade ligeiramente menor, cerca de 10%, de diagnóstico de autismo (risco relativo, RR 0,91) e de perturbação de hiperatividade e défice de atenção, PHDA (RR 0,90). É uma ligação fraca, vista apenas em estudos observacionais, com estimativas ainda imprecisas para a PHDA, e não prova que tomar suplementos previna estas condições. No autismo, a descida era de cerca de 9% por cada 10 nmol/L (nanomoles por litro) a mais no sangue.
Os autores destes trabalhos sugerem, sem que isso seja uma recomendação clínica oficial, que pode ser útil avaliar os níveis de vitamina D durante a gravidez e considerar suplementação quando há deficiência. Na primeira consulta, pergunte se vale a pena medir o seu nível e o que fazer se estiver baixo.
Exercício em casa
Se quiser começar a mexer-se nestas semanas, o plano por trimestre da MomsLab abre o primeiro trimestre com fortalecimento suave e respiração, sem impacto nem recordes, e passa sozinho para o trimestre seguinte; em casa, basta um tapete e espaço para se deitar.
O que se sente no 1.º mês, para lá do corpo
Num estudo pequeno que acompanhou mães do início ao fim da gravidez, com valores próximos das estimativas para a população, entre cerca de 1 em 10 e 1 em 5 mulheres tinha sintomas depressivos clinicamente significativos em diferentes fases. Uma proporção parecida apresentava sintomas de ansiedade. Uns e outros subiam e desciam ao longo dos meses.

Sentir-se em baixo ou em sobressalto nestas semanas está longe de ser uma exceção.
E o stress chega ao bebé?
No início e a meio da gravidez, o sistema de resposta ao stress do feto ainda é imaturo, e é a placenta que regula quanto do cortisol materno lhe chega. Uma enzima transforma o cortisol ativo em cortisona inativa e limita a passagem: este filtro, por si só, não mede quanto as tensões do dia a dia pesam no desenvolvimento do filho, mas significa que um dia mau não passa inteiro para o bebé.
Se o desânimo ou a ansiedade se instalam e não aliviam, diga-o na consulta com a mesma clareza com que falaria de uma dor. Merece o mesmo tempo e a mesma atenção.
O 2.º mês: o risco de perda
Numa coorte acompanhada nos Países Baixos desde antes da conceção, cerca de 9 em cada 100 gravidezes terminaram em aborto espontâneo antes das 22 semanas. Embora estes valores possam ser diferentes noutras populações, a grande maioria das perdas ocorreu no primeiro trimestre, tipicamente por volta das 8 semanas, ou seja, no 2.º mês.
O álcool: o seu e o do parceiro
Na mesma coorte, episódios de consumo excessivo de álcool numa só ocasião no início da gravidez estavam ligados a chances de aborto espontâneo cerca de metade mais altas, embora a associação não prove que o álcool seja a causa. A razão de chances (OR) foi de 1,52. O consumo do parceiro, antes da conceção e no início da gravidez, não estava associado nem a mais abortos nem a infertilidade.
A torção do ovário pode surgir cedo
O ovário pode rodar sobre si próprio, por vezes com a trompa. A gravidez aumenta o risco desta torção, sobretudo no primeiro trimestre e no início do segundo, com um pico entre as 6 e as 14 semanas, quando o útero cresce depressa e desloca os ovários e as trompas.
A torção é rara: ocorre em menos de 4 em cada 10 000 gravidezes, com risco maior em quem tem quistos ou massas no ovário ou fez tratamentos de fertilidade. É grave e exige diagnóstico e tratamento rápidos.
Quando procurar observação no próprio dia
Dor pélvica aguda, náuseas e vómitos são as manifestações habituais da torção do ovário, por vezes acompanhadas de febre ou perda de sangue vaginal. Estes sintomas confundem-se facilmente com outras causas de dor abdominal, sobretudo a apendicite.
Na gravidez, a apendicite é a urgência cirúrgica não obstétrica mais comum e ocorre em cerca de 1 em cada 500 a 1 em cada 2000 gravidezes ao longo de toda a gestação.
Ninguém tem de distinguir uma da outra em casa. Procure observação médica no próprio dia, sem esperar pela consulta marcada, se tiver:
- dor pélvica ou abdominal aguda.
- dor acompanhada de náuseas, vómitos ou febre.
- perda de sangue vaginal com dor.
- qualquer destes sinais depois de uma cesariana ou de outra cirurgia ao útero. Nesse caso, mencione a cirurgia logo à chegada.
Fontes
- Developmental psychobiology. Prenatal Origins of Stress Regulation: Maternal Psychological Distress and Inflammation During Pregnancy Prospectively Predict Infant Behavioral Reactivity and Regulation
- European child & adolescent psychiatry. The impact of maternal vitamin D levels during pregnancy and risk of autism spectrum disorder and attention deficit hyperactivity disorder diagnosis and symptoms in offspring: a systematic review and dose-response meta-analysis
- Frontiers in endocrinology. Perinatal HPA axis regulation and offspring neuropsychiatric development: mechanisms, developmental trajectories, and clinical implications
- International journal of surgery case reports. Ovarian preservation in a pregnant woman with a leaking dermoid cyst and ovarian torsion: a case study and review of diagnostic and therapeutic challenges
- Journal of clinical medicine. Cervical and Cesarean Scar Pregnancy in One Patient: A Sequential Case with Literature Review
- Nutrients. Preconception and Early-Pregnancy Alcohol Consumption in Women and Men, Infertility and Risk for Miscarriage
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